A crise no Polo Naval do Jacuí

Afundou a Iesa Óleo & Gás, principal empresa do Polo Naval do Jacuí de Charqueadas. Na terça-feira (18) a Petrobras divulgou que rescindiu contrato com a empresa que seria responsável pela fabricação e montagem dos pacotes III de módulos padronizados das plataformas P-66, P-67, P-68, P-69, P-70 e P-71. O contrato girava em torno de US$ 800 milhões. Na nota divulgada pela estatal consta que uma nova licitação pode ocorrer: “a Petrobras e seus parceiros BG e Galp, sócios para desenvolvimento da produção do Bloco BMS11 do pré-sal da Bacia de Santos, informam que o contrato assinado com a IESA Óleo e Gás para fornecimento do Pacote III de Módulos de Replicantes foi rescindido. Será realizada, oportunamente, nova licitação para a contratação dos serviços”.

Em Brasília, uma comitiva de lideranças do município (prefeito, vereadores, presidente do sindicato dos metalúrgicos), reuniu-se com o vice-presidente da republica, Michel Temer, para tratar da crise da Iesa e tentar reverter às demissões no Polo Naval. Os funcionários relatam que a empresa não entrou em contato com eles e a situação é de pânico. Cerca de mil trabalhadores estão afastados dos serviços desde o dia 1° de novembro, a previsão era de dez dias de afastamento, mas o retorno foi adiado em três oportunidades.

O charqueadense Honório Rodrigues dos Santos, 46 anos é mecânico montador e trabalha na Iesa desde junho de 2013. Segundo ele, os trabalhadores estão apreensivos: “todo mundo esta apavorado. Eles não nos passam nenhuma posição, só recebemos mensagens dizendo que o retorno foi adiado, estamos aguardando”.

Honório disse que o vale alimentação esta atrasado e que teme em não receber salário no próximo dia 6. “Agora com essa rescisão de contrato eu não sei o que vai acontecer”, frisou. O trabalhador revelou que nos últimos meses não tinha o que fazer na Iesa. “Ficávamos parados, faltava material, ai nos mandaram ficar em casa”, disse. Sobre o andamento da construção dos módulos ele disse que estão pela metade e que nenhuma estrutura foi concluída.

Alex Spaniol, 30 anos, residente na Morada do Sol é mecânico ajustador e esta na Iesa desde abril de 2014 “Estamos a mercê há 50 dias, sem expectativa, sem esperança”, disse. A preocupação agora é com a rescisão do contrato, “será que a Iesa vai pagar?”, questionou o trabalhador. Spaniol falou ainda que nessa época do ano é difícil achar um emprego no ramo: “as outras obras também estão impactadas”.

O baiano Adriano Alcantara, 31 anos, veio para o Rio Grande do Sul com a esperança de um emprego afirmado. O soldador desembarcou na Iesa há quatro meses. Alcantara revelou que nas férias coletivas voltou para Salvador e que antes do término do recesso entrou em contato com o RH a empresa para saber se a situação estava resolvida. “Liguei perguntando se podia retornar para o Rio Grande do Sul e a moça do RH me garantiu que sim, agora estou nessa situação, não tenho como voltar pra casa, sem dinheiro para o aluguel e com dificuldades até para comprar comida”, disse.

O soldador paulista Danrlei Flávio Pereira de 35 anos disse que gastou mais de 2 mil reais par vir ao Estado antes de ser contratado. Ele conta que trouxe a esposa e filho e que agora teme pelo futuro da família. “A promessa era de ótimos salários e direitos cumpridos, porém na realidade acabamos perdendo dinheiro”, disse.

O presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Charqueadas (CDL), Nairo Mirapalheta avaliou os impactos que esta crise deve gerar: “vamos sofrer porque nos mobilizamos para receber esta empresa. Investimos na construção civil, estradas, loteamentos foram criados”. Sobre as demissões e quedas no faturamento, Mirapalheta disse que a entidade ainda não contabilizou os prejuízos. “Precisamos enfrentar tudo isso, nós já existíamos antes da Iesa e não podemos quebrar sem ela”, completou. O empresário Eder Lima, da Retrocam, empresa que prestou serviço para a Iesa revelou que aguarda receber cerca de 40 mil reais. Lima contou que contratou novos funcionários e investiu em maquinários e que agora está se desfazendo de alguns bens para equilibrar as contas. “Apostamos nesse polo naval, adquirimos máquinas, caminhões”, salientou. O representante da Câmara das Industrias, Paulo Araujo acredita na força da comunidade para a recuperação do município voltar a crescer. Gilnei Souza e Regis Seifert, também da CDL trabalham em parceria com os comerciantes para que o setor não sofra grandes prejuízos. “O impacto psicológico é grande. Espero que as pessoa não se deixem abater”, disse Gilnei.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Charqueadas, Jorge Luiz Silveira de Carvalho “Luizão”, está convocando os trabalhadores e a comunidade em geral (comerciantes e empresários) para realizarem um ato na segunda-feira (24). O sindicato vai reunir todos nesta sexta-feira (21) na sede da entidade para organizar a manifestação. Carvalho acompanha a situação desde o início e teme pelos trabalhadores. Citou os funcionários que migraram de outros estados e que agora não tem condições de voltarem para suas cidades.

O empresário Oscar Paulo Silva Júnior, proprietário do Restaurante Rangos e Tragos contou que a Iesa lhe deve R$ 95 mil e que ele acha que não vai receber mais. Júnior disse que com a esperança no polo naval ampliou seu estabelecimento, contratou novos funcionários e que quando parou de fornecer para a Iesa precisou demitir e buscar novos clientes para não sofrer prejuízos.

Na semana passada o diretor e o presidente da Iesa foram presos na Operação Lava Jato, que aponta irregularidades na Petrobras.